¤ Edição III : Shakespeare ¤

Aqui, Willian Shakspeare revisitado em toda sua complexidade e eloquência em três momentos pinçados para o zine.


Sonetos

Como imperfeito ator que em meio a cena
O seu papel na indecisão recita,
Ou como o ser violento em fúria plena
A que o excesso de forças debilita,
Também eu com duvida em mim, me esqueço
No amor de os ritos próprios recitar,
E na força com que amo me ofereço
Rendido ao peso do poder de amar
Oh! Sejam pois meus livros a eloquência
Algures mudos do expressivo peito,
Que amor implorem , peçam recompensa
Mais do que a voz que muito mais tem feito.
Saiba ler o que o modo amor escreve
Que o fino amor ouvir com os olhos deve.



Dois amores de paz e desespero
Eu tenho que me inspirar noite e dia
Meu anjo bom é um homem puro e vero,
O mau, uma mulher de tez sombria.
Para levar a tentação a cabo,
O feminino atrai meu anjo e vive
A querer transforma-lo num diabo,
Tentando -lhe a pureza com a lascívia.
Se há de meu anjo corromper-se em demo
Suspeito apenas, sem dizer que seja,
Mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo
Que o anjo no fogo já do outro esteja.
Nunca sabe-lo, embora desconfie,
Até que o meu anjo contagie.



Ser ou não ser, eis a questão.

Fica. É preciso escolher e passar num instante.
Da vida a morte ou do ser ao nada.
Deuses cruéis! Se existis, iluminai minha coragem.
É preciso envelhecer curvado sob a mão que me ultraja?
Deve suceder talvez a doçura do sono.
Ameaçam nos, dizem-nos que esta curta vída
De tormentos eternos é logo seguida.
Ó morte! Ó momento fatal! Terrível eternidade!
Todo coração só ao teu nome enregda, apavorado.
Oh! Quem poderia sem ti suportar esta vida?
De nossos padres mentirosos suportar a hipocrisia?
De uma indigna amante incensar os erros?
Arrastar sob um ministro, adorar sua altivez?
E mostrar os langores de sua alma abatida.
A amigos ingratos que desviam a vista?
A morte seria muito doce nestes extremos,
Mas o escrúpulo fala e nos grita: Parai!
Suportar ou acabar minha infelicidade e minha sina?
Quem sou? Que me detém? Quem serra a morte?
É o fim dos males, é meu único asilo,
Após longos transportes, um sono tranqüilo.
Dorme se e tudo morre. Mas um terrível despertar.
Proíbe as nossas mãos este horrível homicídio,
E de um herói guerreiro faz um cristão tímido.


Willian Shakespeare.

Traduzido pôr Voltaire e compilado pôr Thina Curtis

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