¤ Edição III: Cartas e poesias ¤

Lágrimas e Rosas

Por: Ligia Carmine.


O ruído do ar condicionado em funcionamento não era suficiente para disfarçar os passos pesados dos ponteiros do relógio. O tic tac vazio se dispersava pelo quarto, pontuado pelos suspiros profundos de Daniela.

A garota, deitada de bruços na cama, segurava uma foto, onde ela e um rapaz sorridente se divertiam num passeio a Campos de Jordão. Era na verdade uma montagem de computador, Daniela nunca esteve lá, mas achava que aquele momento era especial e precisava estar com ele . Qualquer um diria que os dois formavam um lindo par, Assim como disse sua mãe na primeira vez em que o garoto visitou aquela casa.

Ele havia estado naquele quarto dia atrás, e sua presença ainda era perceptível, pois Daniela revivia a todo momento o instante em que os dois se beijaram próximos a janela, e ele sentou-se em sua cama e folheou seu álbum de fotografia. Daniela estendeu o braço direito e agarrou um dos bichinhos de pelúcia sobre o armário, acabou derrubando seu diário no carpete. Ficou abraçada na cama com o bicho, acariciando suas orelhas. Uma lagrima surgiu em seus olhos.

O diário aberto no chão mostrava paginas registradas com caneta colorida. Revelava um dos momentos mais felizes de sua vida. O dia em que conheceu o rapaz. Um dia diferente dos outros, incrivelmente ensolarado, onde os risos eram realmente sinceros e as duvidas já não mais existiam. Se nas paginas anteriores só haviam sonhos e lamentações, Nestas Daniela mostrava-se imensamente entusiasmada com movimentos reais, achava tudo lindo e tinha pressa de viver. Tecia planos e mais planos para seu futuro, traçados com um fio sólido.

O amor de Daniela agora era único e indivisível, e ela faria de tudo para torna-lo eterno.

Daniela levantou-se e sentou-se ao lado da cama. Exprimiu um sorriso quase ao mesmo tempo em que uma lágrima, surgiu em seus olhos. Vestiu uma calça jeans e admirou o próprio corpo no espelho.

Mais um lagrima escorreu seu rosto, novamente foi seguida de um sorriso, desta vez, ainda mais intenso. Alguém bateu a porta. O riso de Daniela deu lugar a uma expressão sombria. Um oficial de justiça acompanhado de um policial entraram no quarto. O oficial pediu a moça que colocasse um agasalho, a garota vestiu uma blusa de moleton.

Seu cabelo solto tornava ainda mais enigmática sua expressão. Daniela fez menção de pegar seu diário, mas o policial disse que ela não poderia mais mexer nos pertences de seu quarto. E os dois saíram com a garota algemada. Acusada de assassinato.

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