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O ruído do ar condicionado em funcionamento não era suficiente
para disfarçar os passos pesados dos ponteiros do relógio. O tic
tac vazio se dispersava pelo quarto, pontuado pelos suspiros
profundos de Daniela.
A garota, deitada de bruços na cama, segurava uma foto, onde
ela e um rapaz sorridente se divertiam num passeio a Campos de
Jordão. Era na verdade uma montagem de computador, Daniela nunca
esteve lá, mas achava que aquele momento era especial e precisava
estar com ele . Qualquer um diria que os dois formavam um lindo
par, Assim como disse sua mãe na primeira vez em que o garoto
visitou aquela casa.
Ele havia estado naquele quarto dia atrás, e sua presença ainda
era perceptível, pois Daniela revivia a todo momento o instante
em que os dois se beijaram próximos a janela, e ele sentou-se em
sua cama e folheou seu álbum de fotografia.
Daniela estendeu o braço direito e agarrou um dos bichinhos de
pelúcia sobre o armário, acabou derrubando seu diário no carpete.
Ficou abraçada na cama com o bicho, acariciando suas orelhas.
Uma lagrima surgiu em seus olhos.
O diário aberto no chão mostrava paginas registradas com caneta
colorida. Revelava um dos momentos mais felizes de sua vida.
O dia em que conheceu o rapaz. Um dia diferente dos outros,
incrivelmente ensolarado, onde os risos eram realmente sinceros
e as duvidas já não mais existiam. Se nas paginas anteriores só
haviam sonhos e lamentações, Nestas Daniela mostrava-se
imensamente entusiasmada com movimentos reais, achava tudo lindo
e tinha pressa de viver. Tecia planos e mais planos para seu
futuro, traçados com um fio sólido.
O amor de Daniela agora era único e indivisível, e ela faria
de tudo para torna-lo eterno.
Daniela levantou-se e sentou-se ao lado da cama. Exprimiu um
sorriso quase ao mesmo tempo em que uma lágrima, surgiu em seus
olhos. Vestiu uma calça jeans e admirou o próprio corpo no
espelho.
Mais um lagrima escorreu seu rosto, novamente foi seguida
de um sorriso, desta vez, ainda mais intenso.
Alguém bateu a porta. O riso de Daniela deu lugar a uma
expressão sombria. Um oficial de justiça acompanhado
de um policial entraram no quarto. O oficial pediu a moça
que colocasse um agasalho, a garota vestiu uma blusa de
moleton.
Seu cabelo solto tornava ainda mais enigmática sua expressão. Daniela fez menção de pegar seu diário, mas o policial disse que ela não poderia mais mexer nos pertences de seu quarto. E os dois saíram com a garota algemada. Acusada de assassinato.
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