¤ Edição IV : Amargo Amanhecer ¤


Deitada sob o edredon cor de laranja, a garota dormia tranqüilamente. Sono pesado, a cabeça no canto da cama, apoiada sobre o braço, a costas viradas em direção a janela. Seus cabelos compridos quase tocavam o chão. Abriu os olhos num impulso, não reconheceu onde estava, o quarto era estranho, não se lembrava do local nem como havia chegado ali. Viu suas roupas intimas espalhadas pelo chão, só então se deu conta que estava nua.

As roupas expostas na porta do armário e a camisa na grade da cadeira eram indícios de um quarto masculino, recolheu o corpo semi-exposto para baixo do edredon, a dor de cabeça já havia cessado tornando mais fácil a conexão de idéias.

Lentamente ela recordou dos eventos passados, cena a cena, Montava o quebra-cabeça do que havia ocorrido na noite anterior. Primeiro - que estava num bar-., Lembrava das luzes de neon da junkie Box e em seguida do rapaz lhe pagou uma bebida., Em certo momento encontrou uma amiga dos tempos de colégio; as duas conversaram alegremente por um tempo. Houve um momento em que pensou Ter esquecido as chaves de casa, e um outro onde sentiu náuseas e estava prestes a vomitar. De repente, o fogo tomou seu corpo.

Em outro momento estava nua, na cama com um rapaz ao seu lado, tocando seu corpo. Envolta em abraços, seu sangue fervia, e ela se refrescava com vinho doce. Como se sentisse a presença da lua, como se nascesse e morresse.

A garota tocou o rosto, procurou as sensações ainda grudadas à pele, buscava um pouco do sabor do vinho que escorrera por seu pescoço. Reconheceu seu perfume, e o toque dos tecidos lhe era familiar. Uma relação intensa havia se consumado naquela cama, e ela fez parte dela, embora parecesse ter acontecido com outra pessoa.

Mas agora ela estava de novo em seu corpo e o devaneio dissipou-se no ar. Desorientada vestiu sua roupa.


A garota saiu do quarto, conferiu o cabelo no espelho do corredor. Na entrada da sala estava um homem, sentado no sofá.
- Preciso ir embora. - Disse ela.
- Levo você no meu carro. - disse ele, pegando as chaves na mesa de centro.
- Acho melhor não. A gente se vê.- Respondeu ela, apressada.
- Carol, por favor! Deixe que eu te levo. - Insistiu ele. A garota recolheu a bolsa que estava em cima da estante ao lado de livros de Pablo Neruda. Sem olhar, o rapaz dirigiu-se a porta.
- Gostaria muito que você ficasse. - Disse o rapaz em voz baixa.
- Não posso. Disse a garota. Com cabeça baixa, escondia o olhar por baixo dos cabelos.
- Eu pensei que ontem... - disse ele hesitante.- Tinha acontecido algo especial.
- Por mais interessante que tenha sido... - respondeu ela. - Tenho que ir embora. Não existe nada entre nós.
O rapaz ficou em silêncio, não havia mais nada a ser dito.
- Escute, Diego. Não leve a mal . Mas você vai encontrar a pessoa certa. A gente se vê.
Foram as ultimas palavras da garota antes de sair.

E o rapaz ficou sozinho no quarto. O vazio tomou conta do ambiente, Diego ficou observando, um curativo em seu braço. A faixa apresentava uma pequena mancha de sangue.
- Entre. - disse ele -Eu sei que você esta me espionando.
Um outro rapaz vestido de branco entrou na sala, saído da escuridão, e sentou-se ao lado do rapaz de alma torturada. - E ai, foi divertido? - perguntou ele.
- Não aconteceu como deveria. - respondeu Diego.
- Oras, mas ela estava aqui. Vocês transaram a noite toda. Um corpo só. Ela tocou as estrelas e essas coisas todas...


Edson F, está sempre perdido em pensamentos, alguns deles resultam em contos envolventes, como este, produzido para o Spell Work. Contatos: emodem@ig.com.br




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