PARTE UM
(por Gi Sauressig)
Havia lágrimas em seus olhos. Porém uma quase imperceptível coragem impedia-as de cair,
molhando sua face... Ela sabia que Magner estava em algum lugar daquela casa, sedento,
com sua pele branca e aquela voz que a fascinava completamente. Sempre que a chamava pelo
nome, um tremor, um desejo inexplicável de se entregar tomavam seu corpo e sua alma. Suas
promessas de vida eterna a instigavam. Mas ela fugia. Fugia com medo, com muito medo,
pois sabia que aquelas presas agudas entrariam em seu pescoço, perfurando sua carne, e
seu sangue jorrando com fúria para fora do corpo, levaria com ele todos os seus sonhos.
Alice ouviu um ruído que vinha de trás das escadas. Era Magner. Era a figura de um anjo, de
olhos azul turquesa, penetrante. A garota não tinha para onde correr, e mesmo se tivesse, de
nada adiantaria. Já era tarde de mais. Ele se aproximava da garota de pele branca, aguçada
pela cor escura de seu vestido, que parecia ter sido manchado de vinho. Seu corpo era alvo,
ainda mais embelezado pelo brilho de um colar que pendia de seu pescoço, lindamente caindo
entre os mais belos seios do povoado.
Magner tocou seu rosto, causando-lhe um estremecimento que percorreu todo o seu corpo, junto
com a delicada e branca mão de vampiro, que descia pelo seu pescoço. Tomou-a então em seus
braços, e segurando seus cabelos, cravou seus dentes na carne, sugando o doce sangue da
garota, que suspirava e fechava seus olhos lentamente, se entregando àquele prazer
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inenarrável,
seu sangue escorrendo, quente, pelo busto, contrastando com a pele branca, e fazendo o corpo
da moça desfalecer nos braços do vampiro, que se banqueteava e tremia junto de sua vítima.
E assim Alice se torna uma bela vampira. Poderosa, amedrontadora, e ao mesmo tempo,
fascinantemente linda e perigosa. Entre os braços de seu mestre, sentindo o cheiro forte do
sangue em seu vestido, entregando-se aos prazeres antes prometidos pelo seu então criador.
PARTE DOIS
(por Edson F)
As cortinas do teatro se fecharam com o final do último ato, a platéia foi ao delírio,
aplaudindo em pé efusivamente. Aquela cena havia se tornado comum desde que a peça
havia estreado. No início o público comparecia por curiosidade, em grande parte pela
presença enigmática da jovem Alice, que fazia o papel principal. Logo toda a
imprensa havia se voltado para a pequena garota de olhos esmeralda.
No camarim, Alice limpava o sangue cênico de seu busto, quando alguém bateu na porta e pediu permissão para entrar. Permissão concedida, um repórter de meia idade entrou na pequena sala.
- Henry Jonas, Correio Nacional. - Disse o homem se apresentando.
- Apenas meia hora senhor Jonas. Estou exausta. - Disse a garota, retirando o aplique do cabelo.
- Fascinante sua peça senhorita Alice. Você realmente sabe como cativar o público.
- Acho que as pessoas gostam de historias de vampiros. - Considerou a garota.
- ...Grande parte do publico vem para ver você. Muitos têm curiosidade sobre a sua vida privada. - Comentou o repórter. - Porque você nunca foi vista andando na praia, ou fazendo compras num supermercado?
A garota exibiu um breve sorriso, que escondia uma ponta de melancolia indecifrável.
- Não posso exibir um bronzeado senhor Jonas, atrapalharia a imagem do meu personagem. - Explicou a garota, exibindo a pele branquíssima do pescoço. - As pessoas não iriam engolir a história de um vampiro que pegou insolação.
- Esta é a parte que mais me impressiona Alice. - As pessoas se prendem demais a literatura.
- Bran Stocker. - Concluiu a garota.
Isso. - Historias de vampiros sempre existiram nas mais variadas culturas, que vivem de sangue e que podem se transmutar em animais ou objetos. Eu só penso Alice, que de repente, se os vampiros realmente existirem, eles serão muito parecidos conosco, andarão de dia e comerão pão com alho.
- Acho que o publico não está preparado para a sua abordagem Sr.Jonas, prefere mais a forma clássica... - disse Alice retirando os sapatos.
Alice abaixou-se para abrir uma gaveta na escrivaninha, o repórter admirou-a. Mesmo se estivesse de tênis e sem maquiagem, pensou o repórter, ainda assim seria fascinante.
- Você comentou pelo telefone que tinha uma coisa para me mostrar... - Disse a atriz.
- Realmente. - Respondeu o repórter tirando um envelope da bolsa. - na sua ultima entrevista você comentou que não conhecia seu verdadeiro pai, sabia apenas que ele era um marinheiro romeno, informação passada por sua mãe.
- Foi. - Afirmou a garota. - Ele teve um breve romance com a minha mãe, e voltou para sua terra natal sem saber que ela estava grávida.
Estive pesquisando sobre os navios que visitaram a cidade de Recife na época em que você nasceu. Não havia nenhum navio romeno.
- Entendo. - Disse Alice, sem esconder a decepção.
Jonas entregou uma foto ampliada para a moça, reprodução de uma capa de jornal. Na foto um grupo de pesquisadores italianos posava ao lado de um reator.
- Quem são estes homens? Perguntou a garota.
- Um grupo de técnicos de uma empresa espanhola viera para o Brasil à 19 anos atrás, visitar uma usina de energia em Recife. Embora eu não possa identificar na foto, havia entre eles um pesquisador italiano e um romeno, que eu acredito poder ser seu pai.
Alice observou o grupo na foto com mais atenção. Uma nova porta se abria para ela e exibia múltiplas possibilidades.
- Consegui os registros da equipe e da tripulação. Estão nos documentos anexos.
- Obrigada. - disse Alice, agradecida, folheando os papéis.
- Espero que isto contribua para que você descubra mais sobre o seu passado. - disse o repórter. - E diminua um pouco esta tristeza em seus olhos.
A garota sorriu. O repórter se despediu e foi embora. Alice pegou o aplique e o recolocou nos cabelos.
Uma nova sessão começaria. Mas esta teria um tom diferente.
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