Antes de falar sobre vampiros, você precisa conhecer o
trabalho de Martha Argel, a escritora cedeu entrevista exclusiva para o zine, e
conta um pouco sobre o vampiro de cada um.
Você tem alguma religião?
Não. Sou agnóstica.
Você sempre escreveu sobre vampiros?
Não. Os vampiros são temas relativamente recente. Desde criança escrevo crônicas, histórias
policiais, humor. Meu primeiro livro, escrito com quinze anos, era uma mistura de historia de
detetives com espionagem. Depois que entrei para a universidade, para cursar ciências
biológicas, comecei a escrever divulgação cientifica e ficção cientifica. Aos poucos fui
descobrindo a fantasia, e acabei chegando nos vampiros. Sou Fascinada pelo potencial literár
io desses seres irresistíveis, mas continuo escrevendo (e muito) sobre outras coisas também.
Você escreve super bem, você é irreverente, irônica, reveladora, romântica (seria estas as
razões a sua identificação com os vampiros, rs) você faz quem está lendo adentrar no
personagem. Dos seus personagens com qual você se identifica mais?
Obrigada pelos elogios!
Quanto à identificação com os vampiros, eu acho que eles são tão maleáveis, tão camaleônicos,
que qualquer um pode se identificar com eles. Há vampiros por quem todo mundo suspira e se
apaixona, e há vampiros rejeitados pela humanidade. Vampiros poderosos e vampiros perseguidos
, acuados. Vampiros adoráveis que são o centro das atenções, e vampiros profundamente
deprimidos, agourentos, pessimistas. Vampiros do bem e vampiros do mal. Desse jeito, não é
difícil qualquer um encontrar um vampiro com quem se identificar, não é?!
Quanto à identificação com meus personagens, costumo dizer que todos eles têm muito de mim,
muito do que eu gostaria de ser e muito do que eu jamais seria. Você pode tentar descobrir,
em cada um, o quê é o quê. Boa sorte!

Eu adorei o livro de contos "O vampiro de cada um" , embora, seja uma ficção têm muitas
verdades de nós seres mortais e humanos, o que você acha que falta para melhorarmos em nossa
evolução?
Toda ficção é uma metáfora da realidade. O vampiro é uma metáfora da condição humana. A
,literatura vampírica na verdade fala de nós mesmos, de nossos desejos, nossos medos, nossos ,
sonhos, nossos pesadelos. O vampiro evoca paradoxos, situações de conflito em que morte e
prazer, dor e desejos se misturam de uma forma complexa e intrigante, e isso o torna perfeito
como instrumento para discutir as grandes questões da humanidade: a morte, a vida, a
eternidade, o amor, o medo. Basta o escritor saber como reproduzir tudo isso em seus
personagens e em suas tramas.
O que eu acho que poderia melhorar a vida das pessoas? Mais respeito entre as pessoas. Ouvir
o que os outros têm a dizer. Menos arrogância de achar que estamos sempre certos. Mais
responsabilidade. Menos apatia. Mais interesse pelo mundo que nos cerca. E não ficar só
dando opinião e reclamando que os outros não fazem. Você acha que está errado? Vai lá e
conserta, porra!
Eu acho legal que você embora já tenha livros editados e seja uma pessoa já conhecida você
continua dando uma força para artistas novos, e também já participou de vários fanzines.
Para você qual a importância de um fanzine?
Embora não tenha muito tempo para isso, na medida do possível tento ajudar escritores
promissores. Não tenho condições de ler textos e dar pareceres, mas tento transmitir um
pouco de minha experiência literária através de entrevistas como esta, ou em eventos,
encontros literários, palestras e mesas-redondas. Acho os fanzines muito importantes,
porque eles são a expressão de pessoas que não se deixam intimidar pela grande mídia, que
não ficam sentadas num canto lamuriando-se sobre a injustiça dos meios de comunicação. O
fanzineiro é aquele cara que vai e faz sua parte, que acredita em seus ideais e não se
conforma em ficar vendo a vida passar.
Já colaborei com vários zines, como Adorável Noite, Sombrias Escrituras, Aventura & Rock and
Roll, Somnium, Megalon. Eu mesma edito, junto com minha amiga e escritora Giulia Moon, o
FicZine, zine voltado para a Literatura Fantástica. Em cada número aparecem um conto de cada
uma de nós e ainda o conto de um autor convidado. Estão disponíveis para download no meu
site.
"A literatura vampírica na verdade fala de nós mesmos, de nossos desejos, nossos medos,
nossos sonhos, nossos pesadelos"
Você tem algum tipo de ritual quando esta escrevendo?
Em geral sim, mas eles mudam constantemente. Numa época, eu precisava fechar todas as
portas e janelas antes de começar a escrever. Durante muito tempo, eu acordava de madrugada e
escrevia durante horas, se fosse interrompida não conseguia mais retomar a escrita. Também
teve um período em que eu deitava no sofá ou na rede da varanda, fechava os olhos e relembrava
história varias vezes , antes de passa-la para o papel. As vezes saio para caminhar quando
preciso montar uma cena mais difícil.
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Nós sabemos que para um poeta, escritor, contista e adjacências é muito difícil conseguir
uma editora para lançar um livro. O que você nos diz para fazermos? Ou o que e onde procurar
?
Vou repetir o que sempre digo para escritores iniciantes. Se você gosta de escrever, só posso
dizer vá em frente e escreva. Faça-o porque gosta e porque lhe dá prazer, e não porque quer
impressionar os outros. Durante vinte anos de minha vida fiz isso e não me arrependo, porque
curti cada momento.
Se você pretende publicar, tendo algum dinheiro é simples: pegue seu manuscrito, procure a
uma editora que edita livros sob demanda (na internet há várias) e você publica o que quiser,
e depois se vira com a divulgação e as vendas. Tenho três livros publicados assim e, de novo,
não me arrependo. Há também editoras onde você paga e eles publicam seu livro, divulgam,
distribuem, independente de você ser conhecido ou não - basta ter grana suficiente.
O difícil não é publicar, é ter seu valor reconhecido. Para isso, não há fórmula mágica.
O que posso dizer é que, sem dedicação, empenho, estilo e originalidade, nada feito. E muita,
muita persistência.
Uma última coisa: não transforme a publicação e o sucesso no objetivo máximo de sua vida, a
menos que queira ser um frustrado na vida. Repito o que todos já sabem: literatura, no
Brasil, é utopia. Você pode contar nos dedos de uma mão quem vive só de literatura no Brasil,
e são raros os que conseguem ser publicados por grandes editoras.
Escreva porque gosta e porque lhe dá prazer, e não esqueça de se aprimorar sempre. E nunca
desista.
O que você está fazendo atualmente? Algum projeto novo?
No momento estou trabalhando para a Wildlife Conservation Society, uma das ONGs mais atuantes
na conservação da natureza no mundo todo, e coordeno o projeto Aves do Brasil. Além de
produzir uma coleção de livros, o Guia de Campo WCS Aves do Brasil, estou envolvida numa
série de atividades cujo objetivo é despertar o amor, o interesse e o carinho das pessoas por
nossa belíssima natureza.
Não sobra muito tempo para a ficção, mas estou tentando concretizar a publicação meu segundo
romance, Amores Perigosos (continuação de Relações de Sangue) e escrever o terceiro e último
da trilogia.
Qual a mensagem que você tenta passar aos seus leitores?
Sua pergunta é muito interessante. Quando a li, meu primeiro impulso foi dizer que não
tento passar mensagem alguma, mas de imediato percebi que não é verdade.
Acho que, com minha literatura, tento fazer o leitor ver que nossa vida é o que fazemos dela.
Podemos ter emoção, ficar deslumbrados pelo mundo ao nosso redor, perceber detalhes
fascinantes no dia-a-dia que nos cerca. A emoção pode vir das páginas de um livro com o qual
nos identificamos, ou nós mesmos podemos criá-la, prestando atenção ao que se passa a nosso
redor, interagindo, tendo voz ativa nos eventos que nos afetam.
Meus contos e livros nascem do profundo entusiasmo que tenho pelo mundo que me cerca, pelas
pessoas, pelas pequenas cenas casuais que acontecem comigo ou que testemunho por acaso. Nunca
consegui entender as pessoas que se queixam de tédio.
Com minhas histórias tento dizer: olhem ao redor de si, vejam que maravilha é o mundo, tirem
os olhos de seus umbigos e prestem atenção nas para as pessoas. Levantem a bunda do sofá da
sala, envolvam-se, tomem atitudes e VIVAM!
Obrigada pela entrevista. Fico muito feliz por você ter um tempinho para nós, seus fãs.
Parabéns pelo trabalho e vida eterna a eles. O Spell Work estará sempre de portas abertas a
você e seus trabalhos. Sinta-se em casa e até breve.
Eu é que agradeço o convite gentil e as perguntas inteligentes, e aproveito para dar meus
parabéns pela iniciativa de publicar este zine. Como eu já disse, admiro muito pessoas como
você, que tomam iniciativas e lutam por seus ideais!

19 Martha Argel
Landy Editora a/c Ione Guerreiro
Rua Fortunato, 119 01224-030 São Paulo, SP
Na rede:
Página pessoal: www.marthaargel.com.br
Blog: http://vampirapaulistana.blogspot.com
Fotos e resenhas:http://marthaargel.multiply.com
Lista de distribuição de notícias e textos: http://br.groups.yahoo.com/group/marthaargel
por Thina Curtis.
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